A Solidão Que Dói e a Que Cura: Como Distinguir e Transformar o Silêncio a Seu Favor
- Psicóloga Jacqueline Ferreira

- 2 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

Solidão não é tudo igual. Existe aquela que machuca, e a que salva (a que o senso comum chama de "solitude"). Quem carrega um histórico de relações abusivas ou dependências afetivas costuma confundir isso. Fica com medo de ficar sozinha porque associa o silêncio com abandono, e não com liberdade. O vazio que deveria ser espaço de reencontro se transforma em um lugar ameaçador, onde o desconforto emocional parece insuportável.
A solidão que adoece
É aquela que vem acompanhada de vazio, de culpa, de sensação de não pertencimento. Não é estar só, é se sentir desconectada de si. Essa solidão adoece porque faz a pessoa aceitar qualquer companhia para não encarar a própria dor. Ela se contenta com pouco, com migalhas, apenas para não se deparar com o desconforto de olhar para dentro.
Esse tipo de solidão cobra caro. Ela drena energia, autoestima e cria a falsa ideia de que a felicidade sempre depende do outro. É o tipo de solidão que sufoca mesmo em meio a multidões e transforma relações em prisões disfarçadas. Muitas vezes, a pessoa passa a preferir estar cercada de pessoas que a diminuem ou invalidam suas dores, porque o medo de se encarar sozinha parece ainda pior.
Essa solidão também se alimenta de silêncios internos. Aqueles momentos em que a mente insiste em revisitar erros, rejeições e decepções. Em que você se sente insuficiente, descartável e incapaz de recomeçar. Ela não acontece só pela ausência de pessoas, mas pela desconexão emocional consigo mesma.
A solidão que cura
Essa é diferente. É o espaço de reencontro. De conseguir ouvir a própria voz sem o ruído do outro. De entender o que se sente, o que se precisa, o que se quer. De se reconstruir sem pressa e sem medo. É um processo, e não acontece da noite pro dia. No início, esse silêncio também assusta, mas aos poucos vai se tornando morada.
A solidão que cura permite que você ressignifique sua história, se acolha nos momentos difíceis e perceba que estar sozinha não significa ser insuficiente, mas sim inteira. É esse silênico saudável que ensina a escolher melhor e a não aceitar menos do que se merece.
Com o tempo, a pessoa começa a descobrir o prazer de fazer coisas sozinha. Um café na varanda, uma caminhada, ouvir sua música preferida, viajar sem companhia. E percebe que esses momentos são muito mais sobre liberdade do que sobre solidão.
Como transformar o silêncio em lugar seguro
Comece a fazer pequenas coisas sozinha: um café, uma caminhada, assistir um filme que você gosta.
Evite ocupar todo o tempo com distrações ou redes sociais. Permita-se sentir.
Escreva. Dar nome ao que sente ajuda a organizar o caos interno e clareia o que parece sem sentido.
Cultive espaços que te tragam paz: música, leitura, natureza.
Permita-se ficar desconfortável. A cura emocional passa pelo incômodo de se reconhecer vulnerável.
Busque acompanhamento terapêutico. Algumas solidões são barulhentas demais pra lidar sozinha, e tudo bem precisar de suporte.
A solidão que mais machuca não é a que está fora. É a que a gente sente mesmo cercada de gente. E essa, só se cura aprendendo a se escolher primeiro. Estar em paz na própria companhia não é solidão, é liberdade. E quando essa liberdade chega, o medo de ficar só dá lugar à leveza de escolher melhor quem merece ficar. Porque ninguém que se sente bem consigo aceita pouco dos outros. E isso é um presente que você só descobre quando aprende a se bastar.



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